O que
vou lhes dizer espero que não vos esqueça, pois ainda há muito para se ouvir e
também escutar. Poderia eu, muito bem, vir aqui e contar uma história de amor.
Não! Melhor! Algo que as pessoas querem ouvir: A mentira. Calma! Deixem-me
explicar.
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Tudo
não se passou de enganação. Fui enganada! Eu me enganei! Fui egoísta,
prepotente e covarde. Simplesmente havia me esquecido das pessoas que estavam
ao meu redor, mas foi só porque eu queria fugir. Fugir da responsabilidade,
fugir da maturidade, fugir da casa de meus pais. Da pressão que eu sofria por
não ser exatamente o que o eles queriam. Então parti. Tornei-me completamente
fria e vazia. Fria como gelo, como uma escultura de mármore. E vazia como um
buraco, como um abismo inacabável. E
aquelas pessoas que me pareciam ser agradáveis, amigáveis... Assim como aqueles
que eu já conhecia, apenas queriam me usar. Ter-me como isca para pescar.
Sinceramente não sei o real motivo de ter
sido levada, ou melhor, de ter deixado me levar. Não sei também porque estou
sendo julgada. Não cometi crime algum, a não ser o fato de quedar-me calada.
Sem questionar, sem opinar, nem ligar para o que está acontecendo, continuo de cabeça
baixa, sem olhar para qual direção estão me levando. Estou bem, apesar de um
pouco incomodada continuo acomodada. Não luto para provar minha inocência nem
nada. Permaneço assim até a minha sentença e, em silêncio, me vejo condenada a
pagar por algo que desconheço. O pior não é o lugar que me trancafiaram e sim a
prisão da minha consciência, do meu ser. Sei que isso agora é apenas o começo
do meu fim já que entreguei de bandeja a minha liberdade. Atormentada por
fantasmas da alma e uma mente esquizofrênica, enlouqueço. Como um enterrado
vivo, sinto uma agonia profunda. Sinto-me impotente diante de tal situação.
Reprimida por uma lei que eu duvido ser a favor dos oprimidos. Eu sigo e vivo
implicitamente num quarto pequeno, sujo e vazio. Resisto para não cortar os
pulsos... Se é que isso faz alguma diferença no mundo.![]() |
| Filme Nosferatu 1922 |
Eu não sei por que razão eu ainda tenho
esperança. Esperança de sumir daqui. De ir para um lugar onde realmente queira
ir.
Hoje,
aparentemente consegui o que eu queria. Eu digo aparentemente porque eu nunca
estou satisfeita. Está bem! Pode me xingar. Eu deixo. Mas não dá pra
controlar... Não tenho culpa de ter fome. Fome de amor, fome de felicidade,
fome de dinheiro. Fome... Nessa merda de sociedade capitalista, onde eu optei
por ser artista, que insiste em me dizer que eu não posso ser completamente
livre e feliz.
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| Obra Abandono de Goeldi |
Lary Mercury



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