quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A vida é um teatro e nós somos os artistas da fome ( Monólogo do artista da fome)


   
    O que vou lhes dizer espero que não vos esqueça, pois ainda há muito para se ouvir e também escutar. Poderia eu, muito bem, vir aqui e contar uma história de amor. Não! Melhor! Algo que as pessoas querem ouvir: A mentira. Calma! Deixem-me explicar.
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      Sou uma artista da fome. Não porque não tenho o que comer, mas porque a comida que me é oferecida não me agrada nem um pouco. E caso me agradasse, com toda certeza me empanturraria tal como alguns políticos corruptos com o dinheiro público. Sim, eu me lambuzaria. E certamente lamberia os dedos após tal lambança. Mas não! Recuso- me a comer essa lavagem que os porcos insistem em degustar. E insatisfeita que sou e estou, fui isolada do meu meio de convívio... Tudo o que eu fiz de nada valeu. Mesmo tendo feito de tudo para vos agradar, Mesmo tendo alegrado a muitos, enquanto por dentro, estava a chorar...  Fui esquecida. Pouco a pouco fui sumindo, até eu ficar assim: Invisível. 
   Tudo não se passou de enganação. Fui enganada! Eu me enganei! Fui egoísta, prepotente e covarde. Simplesmente havia me esquecido das pessoas que estavam ao meu redor, mas foi só porque eu queria fugir. Fugir da responsabilidade, fugir da maturidade, fugir da casa de meus pais. Da pressão que eu sofria por não ser exatamente o que o eles queriam. Então parti. Tornei-me completamente fria e vazia. Fria como gelo, como uma escultura de mármore. E vazia como um buraco, como um abismo inacabável.  E aquelas pessoas que me pareciam ser agradáveis, amigáveis... Assim como aqueles que eu já conhecia, apenas queriam me usar. Ter-me como isca para pescar.
    Sinceramente não sei o real motivo de ter sido levada, ou melhor, de ter deixado me levar. Não sei também porque estou sendo julgada. Não cometi crime algum, a não ser o fato de quedar-me calada. Sem questionar, sem opinar, nem ligar para o que está acontecendo, continuo de cabeça baixa, sem olhar para qual direção estão me levando. Estou bem, apesar de um pouco incomodada continuo acomodada. Não luto para provar minha inocência nem nada. Permaneço assim até a minha sentença e, em silêncio, me vejo condenada a pagar por algo que desconheço. O pior não é o lugar que me trancafiaram e sim a prisão da minha consciência, do meu ser. Sei que isso agora é apenas o começo do meu fim já que entreguei de bandeja a minha liberdade. Atormentada por fantasmas da alma e uma mente esquizofrênica, enlouqueço. Como um enterrado vivo, sinto uma agonia profunda. Sinto-me impotente diante de tal situação. Reprimida por uma lei que eu duvido ser a favor dos oprimidos. Eu sigo e vivo implicitamente num quarto pequeno, sujo e vazio. Resisto para não cortar os pulsos... Se é que isso faz alguma diferença no mundo.
Filme Nosferatu 1922
       Ditadores nojentos e soberbos impõem-me regras que não me agradam nem um pouco, mas obedeço.  Assim é que eu me sinto neste lugar atordoador e devorador. Sufoco! Sufoco é definitivamente a palavra certa para descrever o que sinto.
        Eu não sei por que razão eu ainda tenho esperança. Esperança de sumir daqui. De ir para um lugar onde realmente queira ir.
Hoje, aparentemente consegui o que eu queria. Eu digo aparentemente porque eu nunca estou satisfeita. Está bem! Pode me xingar. Eu deixo. Mas não dá pra controlar... Não tenho culpa de ter fome. Fome de amor, fome de felicidade, fome de dinheiro. Fome... Nessa merda de sociedade capitalista, onde eu optei por ser artista, que insiste em me dizer que eu não posso ser completamente livre e feliz. 
Obra Abandono de Goeldi
     Gritei, esperneei, decidi e acabei com as ilusões.  Com o mundo de Alice em que eu vivia. Basta! Chega de castelos, príncipes encantados e donzelas em perigo. Hoje o tempo mudou. Os modos, os costumes... E claro, eu também mudei. A partir de então passei a ver gigantes caírem no chão. Eu vi nobres se ajoelharem diante de meros plebeus. Vi a dificuldade virar lição e todo orgulho existente cair no chão. Deixe-me contar um segredo: Não há mais bruxa nem bicho papão. Agora assim eu vejo uma luz na escuridão. Vejo os de cima servirem aos de baixo. Eu também vejo tochas de fogo. Mas por dentro... Eu ainda sinto frio. Pois a vida é um teatro e nós somos os artistas da fome.




Lary Mercury

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