“Sempre vi o mundo de uma forma muito complexa. Vivi restos
de luz e pedaços de escuridão, e por todas às vezes queria buscar sentido em
tudo que acontecia, como se a vida realmente pudesse fazer algum sentido.
Minha rotina não é nada extraordinária, nunca fiz o uso de
uma palavra assim para descrevê-la. Disseram-me que extraordinário é algo que
acontece raramente e de uma forma descomunal, bom... Alémde monótona, minha
vida é cheia de coisas que vejo repetitivamente todos os dias.
Vejam bem, não quero contar minhas histórias para entediar-vos,
porém, se não dividir com alguémdesaparecerei no mundo, assim como milhões de
pessoas que têm suas histórias apagadas por não tê-las compartilhado.
Antes de tudo tenho que lhes dizer: sou uma pessoa muito
observadora. Não, nunca havia sido assim antes, mas algo misteriosamente
tocou-me o fundo da alma e desde então não passo um dia sequer sem sentir minha
vida. E por mais curioso que seja, muita coisa não me faz sentido, por isso
passo os dias assim... sentindo.
Vejo pessoas, lugares, conversas, gestos... E dentro de
minha cabeça as imaginovivendo suas vidas no seu mais íntimo e particular. Quem
somos nós quando estamos sós? Acredito que muitas pessoas seriam consideradas
“loucas” se realmente mostrassem o seu verdadeiro ser, mas nossa sanidade só
está à prova enquanto vivemos socialmente, por isso resguardamos nossos atos, e
os transformamos apenas em pensamentos e imagens projetadas dentro de nossa
própria mente.
O que mais me impressiona nas pessoas são seus rostos. Todos
cheios de história e sofrimento, e ver tantos todos os dias chega a me dar
cansaço. Vejo olhos famintos, suplicando por um pouco de paz. Sorrisos opacos
buscando alguma razão para fazerem-se vivos. E almas vagando sem direção,
agarrando qualquer ponto de luz para se salvar.
É muito natural querer fugir dessa realidade, eu o faço o
tempo todo. Devaneios me acompanham em qualquer lugar que eu vá, e crio em
minha cabeça outra forma de ver o mundo, sem ser essa que nos é imposta o tempo
todo. No começo me perdia em minha imaginação e acabava por perder também a
noção do tempo e do lugar, logo depois isso foi se tornando a realidade que eu
criei, e dividia o tempo em quando sonhar acordado e quando tomar as rédeas da
minha consciência para viver socialmente. Ainda passo muito tempo assim,
divagando e vivendo, por ter uma realidade paralela mais interessante do que a
que me oferecem. Por vezes isso me confunde, deixando apenas incertezas sobre o
que verdadeiramente acontece ao meu redor. A lucidez se esvai e resquícios de
insanidade me fazem refutar sobre o que realmente faz sentido nessa imensidão.
Talvez seja por isso que muitas pessoas se perdem no mundo,
vivem sem direção, permanecem no estado “automático”. Nem percebem a vida
passar diante de seus olhos, sejapor suas mentes estarem em outro lugar, ou simplesmente
por seus corpos se acomodarem com toda repetição de sua rotina.
Pessoas gostam de ser observadas, e eu faço isso com
perfeição. Sempre estou tentando imaginar o que existe além da superfície, sem
perceber logo estou olhando fixamente para alguém tentando adivinhar como leva
sua vida, o que pensa o que faz, e quando dou por mim o momento já se tornou
constrangedor e torço para que não pensem que eu sou um maníaco.
A maior bobagem do ser humano é achar que esconder o que é o
fará menos estranho que os outros, mas a verdade é que somos todos estranhos. Cada
um de nós carrega em si uma infinidade de diferenças, e o que deveria ser
entendido é que são nossas diferenças que nos fazem semelhantes. Queremos tanto
calar nossas loucuras e nossos monstros, que calamos a nós mesmos, calamos
nossos sonhos, nossas verdades... Eu prefiro gritar o que sou.
Não sei ao certo em que momento tornei-me assim, mas a história
que tenho para lhes contar é a do despertar da minha vida.”
Quando acabara de escrever, olhou para o lado, viu que uma
jovem, de cabelo preto e sorriso largo lhe observava. Hesitou, abriu seu
caderno novamente e tentou escrever algumas palavras, mas só de saber que agora
era observado já se tornava impossível manter no raciocínio algo que valesse a
pena ser posto no papel. Não sabia como dividir um espaço tão pequeno, ainda
mais com alguém que notasse sua presença, algo impressionante, que de tão raro
de acontecer, não conseguia puxar na memória a maneira correta de como deveria
agir. Com um pingo de ansiedade, o seu medo o fazia checar o relógio de minuto
a minuto, mesmo sabendo que o seu trem só chegaria à meia hora
dali.Provavelmente, o da moça também, já que não eram muitos os trens que passavam
naquele horário. Na verdade, não eram muitos os trens que passavam sempre, meio
de transporte esquecido, vai ver era por isso que preferia viajar a esta
maneira, talvez se identificasse mais com a solidão que, inevitavelmente,
aplaca sobre aqueles que ainda ousam ser diferentes, não melhores, mais
práticos e modernos, mas únicos, como se deve ser. Não aguentava mais ficar esperando,
até que pode ouvir o trem aproximando-se.
- Graças a Deus, chegou.
Ambos embarcaram no trem. Dentro do confortável vagão já
haviam 8 passageiros a vista. Não queria sentar-se com ninguém, mas vendo que
não seria uma possibilidade, escolheu um mal conhecido, conforme faz a maioria
das pessoas. Sentando-se frente à moça, sentiu vexado, um pouco menos do que da
primeira vez, mas ainda a timidez lhe transbordava na face, não deixando-o
esconder o pudor, que não se sabe o motivo, mas se sabe o valor, que, pela
coloração de sua pele, devia ser mais alto que estrondosas dívidas dos magnatas
falidos dos anos 30, e também, como os burguês que se viram sem nada, a morte
era um pensamento corriqueiro em sua cabeça. Porém, não saberia como ferir a si
mesmo sem parecer fraco, e a vergonha de sentir assim, tanto lhe impedia de
mudar, como de se matar, deixando apenas vermelho, o que era motivo para querer
perder a vida, porque senão é possível entregar-se a ela, qual o valor da
mesma?
Duas horas se passaram, dentro de sua cabeça, talvez até
mais. Como o tempo é relativo, ele sabia fazer os segundos virarem horas que
serviam apenas pra poder ficar sozinho, entre aspas, porque eram nesses
minutos-horas que os pensamentos, dos profundos aos mais levianos, dos
imaculados até os mais sádicos, lhe invadiam a mente e faziam companhia como se
fossem amigos, vizinhos e parentes, que ficavam em suas casas esperando o seu
ente querido chegar, e sem a mínima educação, sem ao menos um telefone de
aviso, todos de uma vez chegavam a sua porta e entravam com, como se a casa
fosse deles, e abriam a geladeira, como se a casa fosse deles. E assim ficava a
maior parte do tempo em que viajava, se ocupando de tentar manter a sua
residência mental em ordem, enquanto todo tipo de gente pisava na grama e
pulava na cama, não era fácil, todavia o mantinha ocupado, e principalmente,
longe, longe do mundo lá fora, que era pior que sua casa, independente se
ocupada ou não. Tudo isso cessou, quando, sem ele ao menos entender ou
acreditar, ouviu:
- Oi
Ela lhe dirigia a palavra.
Seus sentidos entraram em conflito, e o máximo que pode
fazer foi olhar para suas anotações torcendo para que aquilo não passasse de um
de seus devaneios, já que a falta de prática no quesito interação,
especificamente com mulheres, era algo que lhe deixava em apuros.
A jovem então voltou a falar:
- Você parece triste
Como prosseguir com essa conversa?
Eu realmente já estivera melhor, mas dizer a causa e circunstância de minha
frustração astral duraria horas de explicações e pensamentos conturbados, além
do mais, por qual motivo alguém pararia para notar minha tristeza?Apenas sorri,
com lábios fechados e olhos que confirmavam fatos sem ao menos falar.
Sua inquietude em querer me compreender deixou-me
descompassado, o hábito de observar as pessoas era uma característica minha, e
eu jamais havia presenciado o inverso. Não pude deixar de notar seu olhar
atirando-me milhões de perguntas, e sua cara de indagação que não cessava em me
analisar. Já não pudera mais hesitar, e assim sucumbi,declarei minha rendição.Cercado,
procurei no meu mais profundo seralgo que talvez pudesse suprir todo aquele silêncio,
e confortar o ambiente.Olhei da janela a natureza que nos acompanhava e então lhe
dirigi a palavra:
- Será que chove hoje?
Por Deus, quem em sã consciência, tentaria prolongar uma
conversa desta forma? Essa talvez fosse a única oportunidade de contato que ela
se sujeitaria a ter, e eu simplesmente joguei ao vento, e vi voar longe. Por
que eu disse aquilo? Não poderia ter dito “eu gosto de trens”? Não, não
poderia... É, parece que meu estoque de assuntos interessantes para se ter com
desconhecidos andava escasso. Aceitei o possível silêncio. Mas então ela
surpreendentemente prosseguiu:
- Talvez! Vê como o sol se esconde atrás daquelas nuvens
escuras? Eu gosto de chuva. O cheiro de terra molhada me remete à minha
infância, o barulho da água caindo na calha, nas árvores, no solo... Afinal, por
que as nuvens são mais escuras quando vai chover? Acho que por a nuvem ser
muito espessa, a luminosidade do sol não atinge as gotículas de água, né?Ainda
há de surgir algo que me intrigue e me encante mais do que a natureza!
Tentei absorver aquela multidão de palavras, mas ao mesmo
tempo me perdia, hipnotizado pelo seu olhar. Me surpreendi. E pra mim havia
algo que me intrigava e encantava mais do que a natureza: ela. Outrora minha
atenção direcionava-se somente a tua beleza utópica, mas agora, era tua forma
de pensar que me instigava.
A conversa se estendeu por todo o percurso, e o silêncio já
não era mais algo que ele almejava. Era incrível a forma como o assunto fluía,
ambos tinham pontos de vista que se divergiam, mas ao mesmo tempo se
completavam.
Ela então chegou ao seu destino, e ele prosseguiu com o
dele, tentando digerir toda informação e curiosidade que a presença dela
despertou.
Qual era o seu nome? Ele nem havia perguntado.
Por Ingrid Miranda.
Espero que ela não fique brava por eu postar, pois sei que aqui é um lugar seguro de admiradores.

<3
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