quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Acho que existem meninas que roubam livros perdidas por ai!



“Sempre vi o mundo de uma forma muito complexa. Vivi restos de luz e pedaços de escuridão, e por todas às vezes queria buscar sentido em tudo que acontecia, como se a vida realmente pudesse fazer algum sentido.
Minha rotina não é nada extraordinária, nunca fiz o uso de uma palavra assim para descrevê-la. Disseram-me que extraordinário é algo que acontece raramente e de uma forma descomunal, bom... Alémde monótona, minha vida é cheia de coisas que vejo repetitivamente todos os dias.
Vejam bem, não quero contar minhas histórias para entediar-vos, porém, se não dividir com alguémdesaparecerei no mundo, assim como milhões de pessoas que têm suas histórias apagadas por não tê-las compartilhado.
Antes de tudo tenho que lhes dizer: sou uma pessoa muito observadora. Não, nunca havia sido assim antes, mas algo misteriosamente tocou-me o fundo da alma e desde então não passo um dia sequer sem sentir minha vida. E por mais curioso que seja, muita coisa não me faz sentido, por isso passo os dias assim... sentindo.
Vejo pessoas, lugares, conversas, gestos... E dentro de minha cabeça as imaginovivendo suas vidas no seu mais íntimo e particular. Quem somos nós quando estamos sós? Acredito que muitas pessoas seriam consideradas “loucas” se realmente mostrassem o seu verdadeiro ser, mas nossa sanidade só está à prova enquanto vivemos socialmente, por isso resguardamos nossos atos, e os transformamos apenas em pensamentos e imagens projetadas dentro de nossa própria mente.
O que mais me impressiona nas pessoas são seus rostos. Todos cheios de história e sofrimento, e ver tantos todos os dias chega a me dar cansaço. Vejo olhos famintos, suplicando por um pouco de paz. Sorrisos opacos buscando alguma razão para fazerem-se vivos. E almas vagando sem direção, agarrando qualquer ponto de luz para se salvar.
É muito natural querer fugir dessa realidade, eu o faço o tempo todo. Devaneios me acompanham em qualquer lugar que eu vá, e crio em minha cabeça outra forma de ver o mundo, sem ser essa que nos é imposta o tempo todo. No começo me perdia em minha imaginação e acabava por perder também a noção do tempo e do lugar, logo depois isso foi se tornando a realidade que eu criei, e dividia o tempo em quando sonhar acordado e quando tomar as rédeas da minha consciência para viver socialmente. Ainda passo muito tempo assim, divagando e vivendo, por ter uma realidade paralela mais interessante do que a que me oferecem. Por vezes isso me confunde, deixando apenas incertezas sobre o que verdadeiramente acontece ao meu redor. A lucidez se esvai e resquícios de insanidade me fazem refutar sobre o que realmente faz sentido nessa imensidão.
Talvez seja por isso que muitas pessoas se perdem no mundo, vivem sem direção, permanecem no estado “automático”. Nem percebem a vida passar diante de seus olhos, sejapor suas mentes estarem em outro lugar, ou simplesmente por seus corpos se acomodarem com toda repetição de sua rotina.
Pessoas gostam de ser observadas, e eu faço isso com perfeição. Sempre estou tentando imaginar o que existe além da superfície, sem perceber logo estou olhando fixamente para alguém tentando adivinhar como leva sua vida, o que pensa o que faz, e quando dou por mim o momento já se tornou constrangedor e torço para que não pensem que eu sou um maníaco.
A maior bobagem do ser humano é achar que esconder o que é o fará menos estranho que os outros, mas a verdade é que somos todos estranhos. Cada um de nós carrega em si uma infinidade de diferenças, e o que deveria ser entendido é que são nossas diferenças que nos fazem semelhantes. Queremos tanto calar nossas loucuras e nossos monstros, que calamos a nós mesmos, calamos nossos sonhos, nossas verdades... Eu prefiro gritar o que sou.
Não sei ao certo em que momento tornei-me assim, mas a história que tenho para lhes contar é a do despertar da minha vida.”
Quando acabara de escrever, olhou para o lado, viu que uma jovem, de cabelo preto e sorriso largo lhe observava. Hesitou, abriu seu caderno novamente e tentou escrever algumas palavras, mas só de saber que agora era observado já se tornava impossível manter no raciocínio algo que valesse a pena ser posto no papel. Não sabia como dividir um espaço tão pequeno, ainda mais com alguém que notasse sua presença, algo impressionante, que de tão raro de acontecer, não conseguia puxar na memória a maneira correta de como deveria agir. Com um pingo de ansiedade, o seu medo o fazia checar o relógio de minuto a minuto, mesmo sabendo que o seu trem só chegaria à meia hora dali.Provavelmente, o da moça também, já que não eram muitos os trens que passavam naquele horário. Na verdade, não eram muitos os trens que passavam sempre, meio de transporte esquecido, vai ver era por isso que preferia viajar a esta maneira, talvez se identificasse mais com a solidão que, inevitavelmente, aplaca sobre aqueles que ainda ousam ser diferentes, não melhores, mais práticos e modernos, mas únicos, como se deve ser. Não aguentava mais ficar esperando, até que pode ouvir o trem aproximando-se.
- Graças a Deus, chegou.
Ambos embarcaram no trem. Dentro do confortável vagão já haviam 8 passageiros a vista. Não queria sentar-se com ninguém, mas vendo que não seria uma possibilidade, escolheu um mal conhecido, conforme faz a maioria das pessoas. Sentando-se frente à moça, sentiu vexado, um pouco menos do que da primeira vez, mas ainda a timidez lhe transbordava na face, não deixando-o esconder o pudor, que não se sabe o motivo, mas se sabe o valor, que, pela coloração de sua pele, devia ser mais alto que estrondosas dívidas dos magnatas falidos dos anos 30, e também, como os burguês que se viram sem nada, a morte era um pensamento corriqueiro em sua cabeça. Porém, não saberia como ferir a si mesmo sem parecer fraco, e a vergonha de sentir assim, tanto lhe impedia de mudar, como de se matar, deixando apenas vermelho, o que era motivo para querer perder a vida, porque senão é possível entregar-se a ela, qual o valor da mesma?
Duas horas se passaram, dentro de sua cabeça, talvez até mais. Como o tempo é relativo, ele sabia fazer os segundos virarem horas que serviam apenas pra poder ficar sozinho, entre aspas, porque eram nesses minutos-horas que os pensamentos, dos profundos aos mais levianos, dos imaculados até os mais sádicos, lhe invadiam a mente e faziam companhia como se fossem amigos, vizinhos e parentes, que ficavam em suas casas esperando o seu ente querido chegar, e sem a mínima educação, sem ao menos um telefone de aviso, todos de uma vez chegavam a sua porta e entravam com, como se a casa fosse deles, e abriam a geladeira, como se a casa fosse deles. E assim ficava a maior parte do tempo em que viajava, se ocupando de tentar manter a sua residência mental em ordem, enquanto todo tipo de gente pisava na grama e pulava na cama, não era fácil, todavia o mantinha ocupado, e principalmente, longe, longe do mundo lá fora, que era pior que sua casa, independente se ocupada ou não. Tudo isso cessou, quando, sem ele ao menos entender ou acreditar, ouviu:
- Oi
Ela lhe dirigia a palavra.
Seus sentidos entraram em conflito, e o máximo que pode fazer foi olhar para suas anotações torcendo para que aquilo não passasse de um de seus devaneios, já que a falta de prática no quesito interação, especificamente com mulheres, era algo que lhe deixava em apuros.
A jovem então voltou a falar:
- Você parece triste
Como prosseguir com essa conversa? Eu realmente já estivera melhor, mas dizer a causa e circunstância de minha frustração astral duraria horas de explicações e pensamentos conturbados, além do mais, por qual motivo alguém pararia para notar minha tristeza?Apenas sorri, com lábios fechados e olhos que confirmavam fatos sem ao menos falar.

Sua inquietude em querer me compreender deixou-me descompassado, o hábito de observar as pessoas era uma característica minha, e eu jamais havia presenciado o inverso. Não pude deixar de notar seu olhar atirando-me milhões de perguntas, e sua cara de indagação que não cessava em me analisar. Já não pudera mais hesitar, e assim sucumbi,declarei minha rendição.Cercado, procurei no meu mais profundo seralgo que talvez pudesse suprir todo aquele silêncio, e confortar o ambiente.Olhei da janela a natureza que nos acompanhava e então lhe dirigi a palavra:
- Será que chove hoje?
Por Deus, quem em sã consciência, tentaria prolongar uma conversa desta forma? Essa talvez fosse a única oportunidade de contato que ela se sujeitaria a ter, e eu simplesmente joguei ao vento, e vi voar longe. Por que eu disse aquilo? Não poderia ter dito “eu gosto de trens”? Não, não poderia... É, parece que meu estoque de assuntos interessantes para se ter com desconhecidos andava escasso. Aceitei o possível silêncio. Mas então ela surpreendentemente prosseguiu:
- Talvez! Vê como o sol se esconde atrás daquelas nuvens escuras? Eu gosto de chuva. O cheiro de terra molhada me remete à minha infância, o barulho da água caindo na calha, nas árvores, no solo... Afinal, por que as nuvens são mais escuras quando vai chover? Acho que por a nuvem ser muito espessa, a luminosidade do sol não atinge as gotículas de água, né?Ainda há de surgir algo que me intrigue e me encante mais do que a natureza!
Tentei absorver aquela multidão de palavras, mas ao mesmo tempo me perdia, hipnotizado pelo seu olhar. Me surpreendi. E pra mim havia algo que me intrigava e encantava mais do que a natureza: ela. Outrora minha atenção direcionava-se somente a tua beleza utópica, mas agora, era tua forma de pensar que me instigava.


A conversa se estendeu por todo o percurso, e o silêncio já não era mais algo que ele almejava. Era incrível a forma como o assunto fluía, ambos tinham pontos de vista que se divergiam, mas ao mesmo tempo se completavam.
Ela então chegou ao seu destino, e ele prosseguiu com o dele, tentando digerir toda informação e curiosidade que a presença dela despertou.
Qual era o seu nome? Ele nem havia perguntado. 

Por Ingrid Miranda. 

Espero que ela não fique brava por eu postar, pois sei que aqui é um lugar seguro de admiradores.

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